Pampilhosa: Quatro décadas depois, o dever de continuar a construir
No dia 9 de julho de 1985, a Pampilhosa deixou de ser uma simples aldeia e foi oficialmente reconhecida como vila.
No dia 9 de julho de 1985, a Pampilhosa deixou de ser uma simples aldeia e foi oficialmente reconhecida como vila. Esse momento trouxe esperança — foi vivido com emoção, com confiança num futuro mais promissor. Acreditava-se que esse novo estatuto traria desenvolvimento, novas oportunidades e melhores condições de vida para quem aqui vive. Hoje, ao assinalarmos quarenta anos desse marco, é tempo de celebrar, sim, mas também de parar para refletir e assumir compromissos.
Nestes anos todos, nem tudo correu como se esperava. Fábricas que foram, em tempos, o sustento de muitas famílias fecharam portas. Serviços importantes desapareceram e, muitas vezes, não surgiram alternativas. Foram feitas promessas que nunca chegaram a sair do papel. E essas promessas deixaram marcas — alimentaram expectativas que acabaram por se transformar em frustração, num certo cansaço e até numa sensação de abandono.
Há locais na nossa vila que continuam esquecidos. O bairro ferroviário, por exemplo, permanece num estado que ninguém devia aceitar. As infraestruturas culturais continuam limitadas a espaços que não fazem jus à importância que a cultura devia ter na vida de uma comunidade. E há edifícios históricos a degradarem-se, lentamente, enquanto se adia a ação. Tudo isto alimenta um sentimento de estagnação e a perceção de que, em certos momentos, falta iniciativa, visão ou simplesmente vontade de fazer diferente.
Mas não é por desânimo que escrevo estas palavras. Muito pelo contrário. A minha motivação vem do profundo orgulho que tenho na minha terra. A Pampilhosa tem história, tem identidade, tem uma localização privilegiada e, acima de tudo, tem gente trabalhadora, determinada e cheia de capacidades. Sempre teve. Por isso mesmo, não podemos aceitar que fique para trás, quando tantas outras freguesias conseguem avançar. A Pampilhosa merece mais atenção. Mais cuidado. Mais investimento. E, acima de tudo, merece respeito.
Claro que também houve avanços. Seria injusto não os reconhecer. Foram feitas melhorias — temos hoje um centro de saúde que dá resposta, uma escola que acolhe os jovens da freguesia, um jardim agradável onde se convivem gerações e um mercado que voltou a dar sinais de vida. São conquistas reais, que devemos valorizar. Mas o caminho está longe de estar terminado. Muito ainda falta fazer.
A Pampilhosa tem todas as condições para ser mais vibrante, mais atrativa, mais cheia de vida. Mas para que isso aconteça, precisamos de mais do que boas intenções. Precisamos de planeamento, de visão estratégica, de políticas que pensem a longo prazo. É fundamental que se invista na cultura, nas nossas tradições, no que nos torna únicos. É preciso dar vida a freguesia da Pampilhosa, apoiar o comércio local, incentivar a juventude e criar verdadeiros espaços de participação para quem cá vive. O papel da população não pode ser secundário — temos de ser ouvidos, envolvidos, respeitados.
Chegar a este ponto da nossa história convida a um balanço, mas sobretudo a um exercício de responsabilidade coletiva. Cada um de nós tem um papel a desempenhar. Cabe-nos estar atentos, propor, agir e não baixar os braços. A transformação da Pampilhosa só será possível se for feita por todos — com vontade, com convicção, com sentido de pertença. É essa força comunitária que pode fazer a diferença.
Tenho orgulho em ser pampilhosense. Aqui dei os primeiros passos, aqui cresci, e aqui aprendi o valor da Pampilhosa, das pessoas e das raízes. É esse orgulho que me move e me faz acreditar que podemos ter um futuro mais justo, mais digno, mais coerente com aquilo que somos. Não podemos deixar que se apague o que nos caracteriza: a nossa cultura, a nossa história, o nosso modo de estar. Precisamos de preservar e de ensinar esses valores às gerações mais novas, porque é neles que assenta a nossa identidade.
Hoje, mais do que nunca, é essencial lembrarmo-nos de quem somos, de onde vimos e de onde queremos chegar. A Pampilhosa faz quarenta anos como vila — que saibamos estar à altura desta data. Que a cuidemos, que a façamos crescer com equilíbrio e com ambição. Que lhe demos vida, em vez de a deixar estagnar. Porque esta terra merece. E porque todos nós que aqui vivemos também merecemos.
Autor: Jornal da Mealhada
