Quinta-feira, 21 de Junho de 2012

TAP: Vamos deixar de voar

TAP: Vamos deixar de voar

Região

TAP: Vamos deixar de voar

Sentado na zona das partidas na porta trinta e dois do aeroporto de Arlanda, aguardo pela terceira vez o voo […]

Sentado na zona das partidas na porta trinta e dois do aeroporto de Arlanda, aguardo pela terceira vez o voo da Tap que me há-de transportar a Lisboa. Adiado das 15 para as 17 horas e das 17 para as 19 na sequência de greves sectoriais, a companhia deixa de garantir o voo directo no horário previsto que vendeu aos clientes fazendo-os passar por aqui e por ali por onde lhes dá mais jeito e conveniência. Não sei se isto acontece diariamente, passaram quatro semanas entre a ida e o regresso, mas trata-se dum mau serviço prestado pela empresa portuguesa aos passageiros e pese ainda o prazer que me dá viajar nos voos nacionais, não me satisfaz, como não satisfaz a qualquer viajante, o facto de ser desviado cronicamente por aeroportos e países fora da rota e chegar aos destinos fora de horas. Sei que nos está no sangue o não cumprimento dos horários como o de quase tudo enquanto cidadãos mas por estranho que pareça não estou habituado a este problema nas lowcosts onde vulgarmente se viaja a menos de metade do preço.

Contudo e apesar destes contratempos é com a bonomia e boa vontade de quem joga em casa que acabamos por aceitar as tropelias que nos fazem. No fundo, á boa maneira de ser do lusitano, mesmo com reclamações, a Tap presta um bom serviço ao país, é um digno representante da nossa bandeira por esse mundo fora, é uma presença linguística, cultural, humana, a afirmação duma nação que abriu caminhos ao mundo e o embaixador de maior peso no sector dos transportes que ainda hoje leva no bojo dos boings e dos airbus a tradição, a mesa, o vinho, as gentes, o calor e a bandeira de Portugal. Ganhou um prémio no ano que passou, o prémio da melhor comida, do melhor vinho, do melhor atendimento a bordo dos aviões, mas tem, ou teve sempre um senão grave a companhia nacional, o problema financeiro. Por isso como ao defunto que em vida foi o maior traste e a quem perdoamos tudo no dia do funeral com o argumento de que no fundo era bom homem e tinha bom coração, também neste caso á Tap é justo reconhecer que bem tem servido Portugal e os portugueses, quer os da diáspora quer os residentes. Agora mesmo, que ainda não morreu, mas sofrendo de doença incurável e recusando os curandeiros operações menos radicais, é bom que se lhe faça a ponderada justiça antes que se vá de vez ao buraco de finado.

Não se pode dizer que tenha sido exemplarmente gerida, nunca o foi, bem pelo contrário, ano após ano tem tido necessidade de capitais públicos para se manter de pé, o que nos leva coiro e cabelo nos impostos que pagamos, coisa porém que nunca perturbou a política local que, passando indirectamente ao lado do pagamento dos impostos a tem protegido subliminarmente da língua do cidadão.

Mas hoje, os crónicos prejuízos apresentados pelas suas contas pesam e a empresa faz parte do lote também crónico de empresas estatais tão mal geridas que se podem designar como empresas abusivamente geridas.

A Tap no entanto, não poderia nem mereceria ser objecto de gestões sucessivamente negativas e metida no cesto do abandono em que o poder da política a tem mantido, sustentando os seus orçamentos, também cronicamente, com o dinheiro dos contribuintes. Limitando-se a considerar a companhia de bandeira nacional como um buraco necessário, permanente e justificado, sucessivos poderes condenaram-na ao que agora vai acontecer, uma espécie de hasta pública a favor de capitais estranhos. Vergonhosamente, sobre a alçada da soberania alheia da troika, algo de aberrante, conservador e ditatorial que nos obriga a ressarcir levianamente os banqueiros que nos levaram á falência e á perda da independência, com o agravamento dos impostos e da vida de cada português a muito curto prazo. Do português e de Portugal, quase diluído nas influências de Espanha.

Pode a troika fazer o mesmo a uma Europa de cócoras perante a globalização, mas caberia a nós a nossa própria defesa já que não conseguimos manter a nossa sustentação e o mal dos outros é relativo no respeito que nos toca. Por isso também vamos na carroça dos pedintes, desgraçados e serviçais deste mundo. Por não termos cabeça, nem projectos, nem gestores e continuarmos a ser propriedade de capitães de Goa fazendo guerras sem rumo, navegações sem barcos , domínios sem objectivos , colocando no imprevisto das marés e na oportunidade dos meios , os destinos dum povo.

Com o próximo leilão da transportadora lá se vai mais um dos derradeiros anéis com dedos e tudo e apesar de vários papagaios da política virem constantemente com a cantiga do bem vendido, ninguém pode ter duvidas que nas condições em que a venda é feita, com o país de tanga e sem poder exigir seja o que for, a transacção da empresa aérea nacional vai ser verdadeiramente um saldo. Mas outro tanto se pode dizer da transferência dos serviços de apoio e da sede da empresa para outro local, pois tarde ou cedo o esvaziamento do aeroporto da Portela vai acontecer, um prejuízo e uma indignidade a juntar ao desastre da venda como negócio da china.

Claro que não se pode dar qualquer crédito a um ministro da economia que garante a continuação da companhia de bandeira nacional com a sua base logística em Lisboa. São garantias desprovidas de sentido e de senso comum, pois no dia seguinte á efectivação do negócio o ministro ou o governo nada tem a ver com a gestão da mesma e nada podem impor ou proibir, ficando á mercê da gestão dos compradores, efectivos donos da Tap, tudo o que lhe diz respeito. Por uma simples questão de gestão de meios e de escala, cedo ou tarde a logística passará para outro qualquer local do mundo conforme as conveniências dos novos proprietários. Para troika e governo talvez o bem caia na mão de amigos e conhecidos, para Portugal e para os portugueses cai na mão do mercado liberalizado com donos e finalidades concretas.

Quando um ministro faz afirmações, que fujam destas realidades de La Palisse, é legítimo afirmar-se que é incompetente e não tem noção do que está a dizer. Ora como isto é incompatível com a formação académica do governante e é portanto inadmissível e incredível que o não saiba, apenas por uma questão de tapar o sol com a peneira, ou seja, para enganar os seus compatriotas, se podem entender tão deprimentes e absurdos comentários. Julgará o ministro que nós, portugueses, somos todos burros?

A Tap vai pois deixar de voar com o nome de Portugal e passar a ser mais uma saudade, como os bacalhoeiros e as frotas pesqueira ou mercante, começadas a abater aquando do ministério do actual Presidente da Republica, então elogiadas, hoje criticadas.

Como portugueses, vamos lá entender a gente que não nos governa!

De qualquer maneira, dêem-lha as voltas que derem vamos deixar de voar, pelo menos nos nossos aviões, e abatida que seja um pedacinho de divida com o produto do saldo da venda, isto no caso de não ser gasta no arraial diário, no ano seguinte ao triste acontecimento, o deficit continua, os problemas manter-se-ão e Portugal encolhe na pobreza e na independência. Passamos a viajar totalmente em companhias estrangeiras, pagando a esses estrangeiros mais do que fazia andar a TAP,xa0 como aliás tem acontecido com todas as empresas privatizadas

Quanto melhor não seria dar á Tap uma gestão séria e rigorosa com objectivos para levar á letra, corrigir a cronicidade dos deficits e mantê-la a servir os portugueses! A Tap sempre foi portuguesa e vai sucumbir agora a vendilhões da Pátria.

Arlanda,Junho,2012.

FERRAZ DA SILVA

Crónicas Locais #121

Autor: Jornal da Mealhada

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