Vitor Simões, do Movimento Cívico pela Permanência da Locomotiva BA61 na Pampilhosa
“É a última peça visível da antiga Companhia da Beira Alta, empresa que colocou a Pampilhosa no mapa internacional da […]
“É a última peça visível da antiga Companhia da Beira Alta, empresa que colocou a Pampilhosa no mapa internacional da Ferrovia”.
xa0
A locomotiva 61 da linha da Beira Alta (a BA 61) é um icone da vila ferroviária da Pampilhosa. Durante muitos anos a locomotiva esteve exposta em frente à estação e transformou-se num ex-libris, acabando por ser retirada para restauro e armazenada nas imediações da Estação. Entretanto a locomotiva tem sido vandalizada e tem sido vítima do saque de amigos do alheio em busca de metais nobre e com valor comercial no mercado paralelo. A propriedade da locomotiva é da Fundação Museu Nacional Ferroviário, que está a reunir todo o espólio disperso pelo país e a concentrá-lo na localidade do Entroncamento.
A saída da BA 61 da Pampilhosa não agrada a muitos pampilhosenses que se estão a organizar no sentido de evitar a saída da locomotiva da vila do concelho da Mealhada. Para isso, foi criada uma petição sob a forma de abaixo assinado, que está, desde o passado sábado, a recolher apoios na Pampilhosa – através da recolha de assinaturas – e na internet – através de uma petição online que já tem (neste momento) meia centena de apoiantes.
O Jornal da Mealhada falou com Vitor Simões, um dos ativistas do Movimento Cívico que luta pela permanência da BA61 na Pampilhosa e que nos explicou a história da máquina e as razões pelas quais esta deve permanecer na Pampilhosa.
xa0
Jornal da Mealhada (JM) – Sendo certo que a Locomotiva BA 61 está há vários anos armazenada, longe da vista, mas na Pampilhosa, qual a razão da urgência no sentido de lutar agora pela permanência do veículo na vila?
Vitor Simões (VS) – Existem dois fortes motivos que nos empurram para uma acção de urgência:
O espaço onde se encontra a BA 61 vai ser alugado pela REFER a um empreiteiro de vias. Por esse motivo a máquina terá que ser retirada daquele local no mais curto espaço de tempo possível.
A velocidade que os amigos do alheio imprimiram à sua acção nos últimos dois meses é dramática. Ainda que não estivéssemos perante a pressão da REFER, o cenário teria que mudar já que se passou do roubo dirigido a latão ou bronze para um ataque a peças de toda a ordem, muitas da quais insubstituíveis.
JM – A locomotiva é um ícone da ferrovia portuguesa e, naturalmente, da história da Pampilhosa – para além de estar no próprio brasão da freguesia. Podem, no entanto, contar-nos a história deste veículo em concreto?
VA – A Locomotiva em apreço, Henschel & Sohnxa0 SN 19828, entra para a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta em 1924. Recebe o número de frota 61 num grupo de cinco unidades. O seu teatro de operações até à sua integração na CP (1 de Janeiro de 1947) assenta no eixo Figueira da Foz Vilar Formoso. Foi integrada no parque da CP onde recebe o número 291 e em 1952 finalmente a identificação CP 211. Mantém-se na zona Centro até final de cinquenta. Ruma para Contumil onde se mantém ao serviço até 1973. Abatida ao activo, ali permanece alguns anos até que é solicitada para a Pampilhosa para ser exposta junto à estação onde se mantém até 1994 altura em que é construído o PCL (área de gestão de circulação da Linha da Beira Alta). xa0É finalmente alojada no antigo Depósito de Máquinas da Pampilhosa onde se manteve à mão de semear até à actualidade.
JM – Porque razão entendem que a locomotiva deve ficar na Pampilhosa?
VS – É a última peça visível da antiga Companhia da Beira Alta. Através do seu projecto, aquela Empresa colocou a Pampilhosa no mapa internacional da Ferrovia. Ali faziam escala para agrupamento ou paragem os comboios internacionais como o Sud-Express, recebiam-se representantes da Casa Real, triavam-se e formavam-se muitos comboios de mercadorias num só dia. O Comboio tornou possível a fixação de indústrias como a cerâmica, madeiras ou adubos de tal forma que, do quase nada, meio rural sem direito a um apeadeiro na Linha do Norte, se passou ao maior centro urbano do Concelho da Mealhada. Ferroviários de todas as profissões e categorias seguidos dos seus familiares tornaram a Pampilhosa num polo industrial como poucos até ao final da década de sessenta. Aquela máquina, se dúvidas houver, está cravada no brasão da Junta de Freguesia da Pampilhosa exactamente pelos motivos acima mencionados. Haverá certamente outros que eu desconheço mas, os presentes, são os suficientes para encorajar o esforço a desenvolver para a sua permanência em segurança e dignidade. Apesar do decréscimo patente, o Comboio ainda é Rei na Pampilhosa.
JM – Sabe-se que a locomotiva BA 61 tem sido vandalizada e espoliada até, de parte dos seus componentes. Pode fazer uma caracterização de como está, hoje, o veículo e do que será preciso fazer para o recuperar e de quanto será necessário?
VS – Ninguém terá a pretensão de recolocar a locomotiva em ordem de marcha. A sua degradação é grande mas ainda recuperável para uma exibição honrosa. Sou entusiasta do Caminho-de-Ferro e não um engenheiro ferroviário. Não devo avançar com detalhes técnicos desnecessários que poucos compreenderão. Não podemos esquecer que cabe à Fundação Museu Nacional Ferroviário (Entroncamento) definir os parâmetros de reabilitação tidos como necessários, bem como orientar toda a acção de restauro. xa0
JM – A petição vai no sentido de envolver a Câmara Municipal da Mealhada neste processo e de ser esta autarquia a encetar as conversações necessárias com a Fundação do Museu Nacional Ferroviário. Já foram feitos alguns contactos com a Câmara Municipal?
VS – O Protocolo de entendimento ou cedência só pode ser celebrado com a Autarquia da Mealhada. Nesse sentido corre uma recolha pública de assinaturas representativas da vontade popular que a Câmara certamente considerará. A autarquia está informada sobre as movimentações em curso. Existe toda a abertura por parte da Fundação Ferroviária. Estou certo que chegaremos a um caderno de encargos distribuído a contento de ambas as partes (Concelho da Mealhada e Fundação).
JM – Para além dos cidadãos organizados em movimento cívico, que outras instituições e associações se associaram a esta causa?
VS – Uma causa sem nome onde se destacam nomes como Ana Pires, Noémia Lopes, Albertina Costa, Mário Rui, etc.. Que nome deve merecer um movimento cívico que honra a sua História?
JM – Partindo do princípio de que a Câmara Municipal aceita encetar conversações com a Fundação, o que pode a autarquia fazer a seguir? Ou seja, o que seria necessário fazer a seguir à Locomotiva BA 61?
VS – O mais urgente é garantir um abrigo seguro para a BA 61 para posterior início da sua reabilitação. Há ideias. Serão apresentadas assim que o Sr. Presidente da Câmara Municipal da Mealhada receba a petição.
JM – Foi criada uma petição online e um abaixo-assinado em papel. Neste ultimo caso, onde é que as pessoas se podem dirigir, e até quando, para manifestar a sua adesão à causa?
VS – A recolha de rua (por todo o Concelho e mais além) tal como a petição online terminam no final do período previsto para a exposição intitulada 130 anos da Linha da Beira Alta, patente na Junta de Freguesia da Pampilhosa (final do mês de Março). Devo referir que este assunto tem cativado gente de todo o Distrito de Aveiro.
JM – Há quem entenda que faz falta na Pampilhosa (nomeadamente na zona da Lagarteira) um monumento ao ferroviário. Há quem entenda, também, que essa homenagem devia ser feita pela população com o apoio autárquico e não, exclusivamente, por iniciativa politico-administrativa. Consideram os ativistas deste movimento que o legado ferroviário na Pampilhosa e a sua memória estão assegurados para as gerações vindouras?
VS – Não conheço na Pampilhosa nenhum marco ou memorial Ferroviário. A memória colectiva vai-se apagando. A Pampilhosa tem novos filhos, filhos que nunca sentiram o fumo de uma vaporosa. A sensibilidade ou vontade do Poder autárquico é fundamental mas, por si só, não basta. A participação popular é muito importante.
Autor: Jornal da Mealhada
